Case Fiat: Open source na indústria automotiva

TL;DR

O case Fiat Mio mostra crowdsourcing automotivo em três fases: mapeamento de cenários, ideação e design. A meta era um protótipo viável para o Salão de São Paulo de 2010, com votos do público na plataforma.

  • Por que importa: open source e cocriação deixam de ser só software e testam indústria pesada.
  • Em números: designers abriram 21 tópicos, cada um em discussão por dez dias.
  • O panorama: Forbes citada elegeu a Fiat entre as mais inovadoras do Brasil via Future Insights.
  • Na prática: Local Motors aparece como paralelo de carro open source em micro fábricas.
  • Conclusão: leia o case como história de inovação aberta, não como manual 2026 de OEM.
A aquisição do GitHub pela Microsoft mudou a forma como muitas pessoas enxergam o software open source. Antes visto como uma alternativa aos softwares pagos, hoje os open sources são, em muitos casos, preferidos em relação aos programas pagos. E se fosse possível aproveitar o conceito open source para a indústria? Em especial, uma indústria tão complexa quanto a automotiva? A resposta certamente causaria muito desconforto e contradição. Foi exatamente isso que a Local Motors fez: desenvolvimento de carros open source usando micro fábricas. No centro da Local Motors estão a cocriação, a inovação aberta e a manufatura digital. Após entrar na comunidade, você ajuda a desenvolver um carro criado pelos designers da rede, ou, se tiver os conhecimentos necessários, cria um novo carro. Toda a rede vota para escolher qual carro será cocriado e escolhe as partes do carro, do interior até o motor do veículo. Quando o carro estiver pronto, você mesmo o constrói. A Local Motors abre uma micro fábrica na sua região e fornece todas as ferramentas e conhecimentos necessários. A Forbes elegeu a Fiat como uma das empresas mais inovadoras do Brasil, destacando a área autônoma de inovação criada pela empresa, chamada de Future Insights.
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Tudo começou com o MIO

Inspirado pelo livro “O que a Google faria?“, de Jeff Jarvis, Peter Fassbender, o diretor de design da Fiat LATAM, idealizou a criação de um novo carro conceito para ser apresentado no Auto Show de São Paulo. O desenvolvimento do carro seria baseado na colaboração e teria o foco em atender aos desejos e as necessidades dos clientes. Junto com sua agência de publicidade, a Fiat elaborou todo o processo de crowdsourcing baseado em três fases: mapeamento de cenários, ideação e design. O mapeamento de cenários começou com uma pesquisa sobre o carro do futuro e o futuro dos carros por meio de entrevistas com especialistas, com a finalidade de identificar tendências. A Fiat então, lançou uma plataforma colaborativa onde os clientes pudessem debater acerca da seguinte pergunta: no futuro que estamos criando, o que um carro deve ter para que eu o chame de meu, enquanto ainda sirva para outras pessoas? O objetivo da plataforma era avaliar a participação das pessoas respondendo as perguntas e guiando a discussão através de ideias e de exemplos. As redes sociais eram utilizadas para estimular a participação e fornecer conteúdos de referência para as pessoas se inspirarem. Todas as ideias e comentários eram analisados e vários relatórios foram elaborados sobre como os usuários imaginavam o carro do futuro. Tags estavam disponíveis para que as pessoas pudessem classificar suas ideias. Apesar disso, a intenção do projeto não era coletar ideias para a produção, e sim entender como as pessoas se relacionam com os carros. Ao desenvolver o projeto junto com o público, era necessário garantir que as expectativas e necessidades dos consumidores fossem compreendidas. Por isso, representar os desejos do público de maneira adequada e desenvolver o protótipo de maneira coerente eram os principais desafios durante todo o projeto. Os designers separaram 21 tópicos que seriam o esqueleto para a próxima fase e cada tópico foi aberto à discussão individual por dez dias para esclarecer o caminho que designers e engenheiros deveriam seguir. Para receber sugestões consistentes, a Fiat continuou estimulando o fluxo de ideias fornecendo referências, por meio de imagens e texto sobre o que era viável. A fase anterior tinha recolhido insights para gerar um carro desejável pro futuro, independentemente da viabilidade técnica. Mas, no estágio de Design de Conceito, a Fiat queria se concentrar em projetar um protótipo viável para expor na edição de 2010 do Salão do Automóvel de São Paulo. Os usuários da Internet foram convidados a votar no que preferiam. Para agradar o maior número de consumidores, os designers decidiram adotar a versão mais votada, mas com alguns elementos do segundo lugar. O processo de inovação aberta não parou quando os designers começaram a construir o protótipo. Ao longo desta fase, a Fiat continuou a cultivar o diálogo e incentivar as pessoas a fazer escolhas. Opções foram postadas na plataforma Fiat Mio para serem votadas pelos usuários. Mas o processo agora estava voltado para aperfeiçoar uma proposta, em vez de gerar alternativas. O processo de modelagem começou por esculpir digitalmente o carro em 3D. Os modeladores receberam esse modelo e criaram uma estrutura metálica inicial, que servia como esqueleto. Em seguida, foi para o maquinário, em que uma impressão offset em isopor formava uma estrutura que era coberta manualmente em argila. Uma fresadora corrigiu o formato, aproximando-o do modelo virtual. Depois disso veio mais trabalho manual com designers verificando linha por linha a proporção, volume e distância, e fazendo ajustes manuais quando necessário. Para o interior do carro, foi feito um modelo similar de argila, onde os designers podiam sentar, tocar, sentir e decidir o que tinha que ser modificado. Como esses ajustes manuais foram feitos em modelos de argila, eles, agora, precisavam ser traduzidos de volta para o mundo virtual. Uma câmera digital tirou fotos para que o modelo virtual original pudesse ser adaptado às modificações manuais feitas no modelo de argila. Posteriormente, esse novo documento foi utilizado para gerar o modelo final, que foi laminado em fibra de vidro e resina.

Conclusão

O mercado de automóveis é um dos mais resistentes a mudança e os fabricantes tendem a não responder às necessidades reais dos seus consumidores. O projeto Fiat MIO nos mostra como é possível desenvolver um veículo com extensa colaboração e feedback dos usuários. Isso permite um alinhamento entre o desenvolvimento do veículo e seu lançamento final. Entretanto, algumas dúvidas surgem com essa transformação: será que iniciativas isoladas são suficientes? Será que projetos de inovação evitarão a disrupção das grandes montadoras? Ou ainda, será que precisamos de uma revolução completa no modelo de negócios colocando a inovação e o relacionamento com o cliente no centro de toda operação?

Perguntas frequentes

Como a Fiat estruturou o crowdsourcing do Mio?

Em três fases: mapeamento de cenários, ideação e design colaborativo com a plataforma. Houve estímulo em redes sociais e análise de ideias com tags para classificar contribuições. Designers depois abriram 21 tópicos por dez dias cada para orientar engenharia antes do conceito votado pelo público.

O público decidia o carro sozinho?

Não. O texto diz que a intenção inicial era entender a relação das pessoas com carros, além de coletar ideias soltas para produção. No design de conceito, a Fiat buscou protótipo viável para 2010 e adotou a versão mais votada com elementos do segundo lugar. O diálogo continuou para afinar uma proposta.

O que a Local Motors tem a ver com o case?

O artigo abre com a Local Motors como exemplo de carros open source em micro fábricas com cocriação e voto da rede. A Fiat Mio entra em seguida como case brasileiro de inovação aberta citado pela Forbes. São paralelos de abertura industrial, cada um com escopo e escala próprios.

MM Matt Montenegro