Você sabe utilizar o pronome “mesmo” corretamente?

TL;DR

Em português, mesmo funciona sobretudo como demonstrativo de identidade ou de referência a algo já citado, conforme o Priberam. O problema surge quando o mesmo substitui um pronome pessoal sem ganho de clareza.

  • Por que importa: o vício deixa o texto burocrático e às vezes ambíguo.
  • Como funciona: prefira ele, ela, isso ou repetir o substantivo.
  • Na prática: use mesmo para igualdade ou ênfase legítima.
  • Ponto de atenção: nem todo mesmo é erro; o contexto decide.
  • Conclusão: se a frase ficar mais clara com ele/ela, troque.

Você já parou para pensar sobre o pronome “mesmo”? A utilização desse pronome costuma confundir até os redatores mais experientes e é por isso que decidimos dedicar um post exclusivamente a esse tema. Afinal, o pronome “mesmo” é tão comum em nossa vida que nem sempre observamos as regras que o regem.

Em qualquer lugar do Brasil você, provavelmente, já viu ou ouviu a frase “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo se encontra parado neste andar”. Essa frase já faz parte do nosso cotidiano, porém, é um dos clássicos exemplos de mau uso do pronome “mesmo”, por isso, vamos entender o porquê ao longo deste texto.

Pronto? Então comece já a leitura!

Neste post 3

“Mesmo” não é pronome pessoal?

A frase do exemplo introdutório tem uma história complicada. Tudo começou quando a câmara de vereadores de São Paulo, preocupada com a segurança dos moradores da cidade, promulgou uma lei obrigando os edifícios da cidade a implementar essa frasezinha na porta dos elevadores. O que parecia um ato de boa intenção, todavia, não passou em momento algum pelas mãos de um revisor.

É que na frase dos elevadores o principal erro que alguém pode cometer em relação ao pronome “mesmo” aconteceu: ele foi aplicado como pronome pessoal. E quando a lei se espalhou por todo o país, ninguém se deu ao trabalho de corrigir essa simples frase.

Quando “o mesmo” é utilizado como pronome pessoal, especificamente nesse contexto, a incorreção é provocada pois não há em nenhum momento a informação sobre quem é esse tal de “mesmo”. O ideal em situações como essa seria uma correção bem simples, substituindo o “mesmo” pelo pronome “ele”.

Porém a confusão é muito natural. Mesmo porque somos ensinados, incorretamente, a usar o pronome “mesmo” toda vez que não queremos nos repetir, não é?

Aí em frases como “Conversei com o padre e o mesmo acredita que a juventude está perdida” o erro passa quase que batido. A frase soa muito bem e acreditamos que estamos respeitando o bom português.

Por outro lado, chamar atenção para esse tipo de erro nem sempre é bem recebido, especialmente se você está numa reunião ou respondendo aquele e-mail corrido. Já me peguei hesitando antes de corrigir esse uso num texto de colega por pura simpatia — não é raro o termo escapar até de quem manja das regras. Às vezes, a tentativa de soar formal termina justamente nesse tropeço, e nem todo mundo quer ouvir lição de gramática por causa disso.

Nem sempre, aliás, é só falta de atenção. Tem um traço quase afetivo aí, uma vontade de evitar repetições que deixa o texto, na cabeça de quem escreve, mais elegante. Mas esse improviso costumeiro não encontra respaldo gramatical, então, mesmo que muita gente nem perceba, vale ficar ligado para ajustar quando necessário. Realmente, não é só uma teimosia da norma culta — é uma questão de precisão para não gerar ambiguidade.

Porém o “mesmo” não é pronome pessoal em situação alguma. Ele é um pronome demonstrativo, que deve ser utilizado para retomar uma oração ou na hora de realçar um substantivo. Como fizemos ali na frase: “Mesmo porque somos ensinados, incorretamente, a usar o pronome “mesmo”…” acima.

Qual a função do “mesmo” nas frases?

Os pronomes demonstrativos, como o “mesmo”, são pronomes específicos que utilizamos na hora de retomar ideias e situar pessoas em relação a um dado discurso. Todos os pronomes demonstrativos se referem ao tempo, ao espaço ou ao próprio texto que estamos escrevendo. Por isso, eles são demonstrativos, servindo para reforçar os pronomes pessoais.

Na língua portuguesa temos pronomes demonstrativos de sobra e eles são: o, a, os, as — quando equivalem a isto, isso, aquele, aquela e aquelas —, mesmo, próprio, tal, semelhante, este, esta, esses, essas, aquele(s) e aquela(s). De todos esses pronomes, todavia, o “mesmo” é o que melhor nos indica uma referência a ideias que já foram expressas textualmente, porém, ele sempre pede um complemento, pois ele não é usamos para retomar como faz o pronome pessoal.

Por exemplo, “toda vez que eu ando de bicicleta eu caio, o mesmo acontece com a minha irmã”. A pergunta que fica é: o “mesmo” quê? “O mesmo caso”; “o mesmo fato”, portanto, “toda vez que eu ando de bicicleta eu caio, o mesmo fato acontece com a minha irmã”.

Como utilizar o pronome “mesmo” corretamente?

Então, como garantir que estamos usando “o mesmo” corretamente? Use as equiparações abaixo para orientá-lo:

  • o “mesmo” está correto quando denota ideias como “justamente, de fato, até, ainda”. Pense em frases semelhantes a “É aqui mesmo que quero morar quando estiver mais velho”;
  • o “mesmo” também é adequado quando falamos da exata mesma coisa já referida. Um bom exemplo é “O mesmo que lhe informei tratei de ressaltar naquele momento”;
  • mas o “mesmo” também é usado “na mesma situação”, ou seja, como uma expressão. Nesse caso ele aparece em frases como: “Falar ou não com Pedro dá no mesmo”; e
  • outra situação em que o “mesmo” aparece é como conjunção concessiva, significando “ainda que”. “Mesmo que eu não vá a festa você deve ir”.

Os únicos contextos em que o “mesmo” é pronome é quando ele significa “idêntico”, “próprio” ou “exato”. Frases como “Elas mesmas arrumaram o chuveiro” se encaixam nessa situação.

E aí? Acha que agora terá facilidade de usar o “mesmo”, quer ele apareça na frase como pronome demonstrativo (o mais comum) ou conjunção? Esperamos que sim.

Perguntas frequentes

O que o Priberam registra sobre o mesmo?

Como determinante e pronome demonstrativo que indica igualdade, semelhança ou identidade, e também como referência a coisa ou pessoa já mencionada. Esses sentidos explicam usos como estas mesmas calças ou continua a mesma. O dicionário não trata o termo como sinônimo automático de ele ou ela. Use a entrada para checar se sua frase está nesse território semântico.

Posso usar o mesmo no lugar de ele ou ela?

Em redação cuidadosa, quase sempre é melhor evitar. Quando o Priberam fala em pessoa já mencionada, ainda assim o português corrente prefere o pronome pessoal para retomar sujeito. Troque por ele, ela ou pelo nome. Se a frase parecer de ofício antigo, reescreva em voz mais direta.

É correto dizer você mesma ou eu mesmo?

Sim, em usos de ênfase e identidade do tipo eu mesmo resolvi ou você mesma viu. Isso se alinha à ideia de igualdade ou identidade do demonstrativo. O problema não é o intensificador. O problema é a retomada seca o mesmo enviou o arquivo no lugar de ele enviou. Separe os dois casos na revisão.

Como revisar um texto viciado em o mesmo?

Busque a expressão e teste a troca por pronome pessoal ou pelo substantivo. Se a clareza subir, mantenha a troca. Reserve mesmo para os sentidos de identidade e ênfase descritos no Priberam. Faça isso sobretudo em emails e posts longos, onde o vício se acumula e cansa a leitura.

MM Matt Montenegro