Vejo diariamente, hoje mais diariamente do que nunca, mulheres e homens se esforçando heroicamente para serem quem não são. E convencendo os outros disso.
A internet, em especial as redes sociais, são mestras em abrigar este tipo de disfarce: gente notadamente frustrada e infeliz, que deposita as suas esperanças em fotos e posts ultrapensados, acreditando que likes e tapinhas nas costas virtuais as salvarão do imenso abismo em que se encontram.
Até a aparição do Orkut, em 2004, primeira rede social a causar furor por essas bandas e que, em 2015, ao fechar as portas, tinha 30 milhões de brasileiros cadastrados, existiam dois tipos de seres humanos: aqueles que “eram realmente” alguma coisa e aqueles que “nós achávamos que eram” alguma coisa.
As redes sociais criaram uma terceira espécie: o ser humano que “gostaria que nós pensássemos que ele é alguma coisa”. Ou seja: especialistas em criar no outro falsas percepções.
Sim, redes sociais estão coalhadas de personas virtuais iluminadas e vitoriosas-em-tudo-na-vida que pouco ou nada se parecem com os humanos desalentados e afogados em piscinas de boletos que habitam nossos prédios, frequentam as mesmas academias do que nós ou timidamente dividem conosco elevadores e bancos das universidades e MBAs.
De vez em quando eu me pego imaginando quem são essas pessoas por trás das telas. Dá uma sensação estranha, porque nas raras vezes em que alguém tira a máscara (se é que tira), o que aparece não chega nem perto da versão digital. Tem até um quê de decepção no ar, mas talvez seja esse o preço do palco online, sabe? É como se a performance tivesse virado o padrão, e quem foge disso acaba parecendo deslocado — ou quase invisível.
Tem outro detalhe curioso: muita gente jurando que detesta esses falsos brilhos, mas segue consumindo cada passo, cada post, analisando como quem desmembra um roteiro de novela. Vai ver existe um pequeno prazer escondido em admirar essas fachadas, ou talvez uma esperança boba de encontrar alguma dica de como dominar o jeitinho Instagram de viver. Só sei que esse olhar curioso acaba alimentando ainda mais o ciclo, meio como gasolina em fogueira de vaidade.
Não raro, pasme, reclamam dos mesmos problemas que afligem qualquer ser humano.
Por que, então, acreditar neles?
Porque definitivamente o mundo real e o virtual não se conversam – e aqui está o risco.
Não identificar aqueles que traem o nosso juízo em nome única e exlusivamente das frustrações deles pode ser um jogo perigoso e nos levar a lugares muito muito sombrios.
Vejo usuários das redes desesperados gastando com gurus de post o pouco dinheiro que juntaram e aplaudindo cegamente quem, na vida real, não goza nem de 8% da relevância de mercado ou sucesso que jura ter conseguido.
Pior: fazem estes pobres desavisados acreditarem que também chegarão lá (aonde?), caso sigam seus conselhos e, num dado momento, ah vá, paguem por eles.
Vejo números e estatísticas de fazer corar de vergonha segundo-anistas de Matemática, sendo anunciados como mágica.
Vejo uma suposta humildade por parte de quem bajula e admira crachás, cargos e salários alheios e sequer daria bom dia para a Dona Maria do café (a menos que fosse para fazer um selfie).
Senso crítico, senso crítico, senso crítico
Fórmula de bolo para despertar nosso senso crítico não existe. É um aprendizado que pode levar uma vida – e que pode nunca chegar. A boa notícia é que ele precisa ser intencional, isto é, você é quem decide mudar o seu olhar a respeito das pessoas e das situações.
Ao ler um texto mirabolante, cheio de adjetivos e da palavra EU, desconfie: a ponta azulada e reluzente do iceberg pode ser um imenso saco de lixo virado do avesso num oceano poluído, refletindo a luz do sol.
Parar para admira-lo como se fosse obra da natureza te fará perder tempo e deixar passar ao largo tesouros verdadeiros. E o tempo é a única dádiva da vida que não volta.
Este artigo também pode ser lido aqui.
Nota do editor:
Aproveite para conferir nosso Manual de Boas Práticas no LinkedIn para evitar cometer alguns outros erros, além dos citados pelo Marc neste artigo. 😉